As dificuldades das grandes empresas em sustentarem sua posição dominante

No mundo de hoje com ciclos de produtos cada vez mais curtos, abundância de capital para bons projetos, redução de barreiras de entrada e custos de transação em várias indústrias e rápida obsolescência da tecnologia, torna-se cada vez mais difícil para incumbents se sustentarem na sua posição de dominância frente aos attackers.

Estive trabalhando em muitos deles ao redor do mundo, Ásia, Europa, Américas, e correndo o risco de ser injusto com alguns. A grande maioria das grandes empresas não domina a inovação, é passiva com relação aos desafios do futuro e tende a focar no mais simples como eficiência, redução de custos e downsizing de forma a alcançar mais alguns anos de sustentabilidade. Ao meu ver os sistemas de incentivos de curto prazo levam a isso: fechamento dos quarters, bônus anuais, perspectiva de carreira de poucos anos ainda na posição ou empresa. Ou seja, o desafio de sustentabilidade e inovação nas grandes empresas é muito grande. Poucas conseguem emular um ambiente de start-up e incubadora internos e acabam recorrendo às aquisições como a forma de injetar negócios inovadores em seu portfólio. De forma geral, essas grandes empresas seguem o conservadorismo, a consistência, por vezes até retardando o futuro e evitando “fazer marola”.

Isso seria uma grande oportunidade para o outro lado da mesa, onde estão os start-ups, empreendedores, venture capital e anjos, em ambientes dinâmicos e inovadores ao extremo visando fazer o leap-frog de produtos, serviços e indústrias, criando novos mercados e novas necessidades para os consumidores. No entanto, esse ambiente também não é só de rosas. Altamente competitivo e penalizador, grandes idéias passam a ser descartadas se não conseguem decolar rapidamente. Por vezes, ideias brilhantes nunca prevaleceriam se não fosse pela insistência, paixão e coragem do “maluco” do empreendedor por trás da idéia.

Então quem serão os vencedores dessa nova era?

Correndo o risco de entrar num lugar comum, serão os incumbents que conseguirem emular um ambiente de start-up nas suas organizações e os empreendedores que conseguirem estabelecer consistência e conservadorismo ao fazer decolar os seus novos negócios.

Ou seja, as grandes empresas tem que buscar a criação de ambientes um pouco menos avessos a risco permitindo aos seus executivos tentarem, errarem e corrigirem de forma a explorar a geração de novas idéias sem a penalização pelo fracasso de tentativas e erros, como funciona em ambientes de start-up, disseminando o conceito e uso de protótipos, projetos piloto, tudo isso com a injeção de novas contratações de perfis mais empreendedores, claro que com adequação de incentivos e planos de carreira, de forma a conseguir atrair e reter tais talentos.

No lado dos start-ups, talvez o mais importante seja evitar o fenômeno da “morte súbita”, pela falta de planejamento e fôlego financeiro, ou simplesmente por uma má gestão da expectativa dos investidores. Na minha experiência, uma coisa importante é reconhecer que o ecossistema ao redor dos start-ups nem sempre é tão dinâmico como dentro deles e preparar-se para cenários diferentes em velocidades de adoção de produtos e serviços pode ser o “make or break” para o sucesso de um empreendimento.

Em resumo, dificilmente conseguiríamos abranger todos os trade-offs entre Davi e Golias, Inovação e Sustentabilidade, Incumbents e Attackers, sem entrar nos específicos de indústrias e negócios. O fato, porém, é que o desafio existe e é grande em ambos os lados e que um não é o oposto do outro, mais sim uma outra faceta, outra interpretação de um único elemento, a estratégia de negócios. Me explico, a maioria dos casos em que vejo de um lado ou de outro em que se falha na conquista sustentável de seu espaço, o problema parte de uma falha na correta análise da real situação de mercado e da definição de uma estratégia clara e compartilhada guiando os planos de negócios, acionistas, executivos e colaboradores das empresas. Claro que não podemos desprezar o “gut feeling” ou a intuição dos empreendedores e CEOs, mas não esqueçam do “101” da gestão dos negócios, a estratégia !!! 

André Bianchi Monte-Raso é especialista em estratégia, start-ups e desenvolvimento de negócio, consultor de grandes grupos de mídia, tecnologia e Telecom, e também escreveu o artigo “O futuro dos negócios digitais no Brasil”.