Como serão as captações de fundos de Venture Capital a partir de 2020 na perspectiva de um investidor

O ecossistema de startups e scale-ups tem evoluído de forma exponencial no Brasil e atingido recordes de investimento. Só em 2020, foram  investidos US$ 3,5 bilhões de dólares em scale-ups brasileiras, em um total de 482 deals.

O desenvolvimento do ecossistema é não apenas impressionante, mas também muito rápido. Os primeiros fundos de Venture Capital e startups surgiram no Brasil ao redor de 2008. De lá pra cá, vivenciamos o nascimento dos primeiros unicórnios (que agora já são mais de uma dezena!), grandes fundos internacionais aumentando sua exposição no Brasil e América Latina (como Sequoia, Andreessen Horowitz e SoftBank), abertura de capital de scale-ups brasileiras nas bolsas americanas (como a Stone) e aqui no Brasil (como o Meliuz). 

Menos divulgado, mas também fundamental para este desenvolvimento, é o crescente número de fundos de Venture Capital operando no Brasil atualmente. Quando iniciei meu primeiro fundo, Grid Investimentos, em 2012, me lembro bem da dificuldade enfrentada pelas startups e scale-ups para captar no mercado nacional, já que o número de gestoras e gestores ativos cabia facilmente em duas mãos. Hoje, segundo levantamento do site Sling Hubjá são impressionantes 220 investidoras e investidores atuantes no setor de Venture Capital brasileiro.

Mas o crescimento desses fundos se dá, principalmente, pelo crescente interesse de investidoras e investidores brasileiros – pessoas físicas, famílias e corporações – por esta “nova” classe de ativos. 

Brasileiras e brasileiros estão aprendendo a investir em ativos alternativos e ilíquidos, algo inimaginável a alguns anos atrás, quando uma aplicação de renda fixa rendia facilmente 14% ao ano. E, além disso, pegaram gosto pelas startups, scale-ups e tecnologia, percebendo uma grande oportunidades de rentabilizar e multiplicar seu capital e de conhecer novas formas de gerenciar negócios e tendências tecnológicas que vão impactar seu dia a dia.

As investidoras e investidores estão buscando novas oportunidades de investimento no setor, seja diretamente como em plataformas de equity crowdfunding e investimentos anjo, ou indiretamente por meio de fundos constituídos no Brasil ou no exterior. 

O número crescente e expressivo de fundos demonstra o grande interesse de investidoras e investidores, muitas vezes famílias com patrimônio de milhões e até bilhões de dólares, no mercado crescente.

A captação desses fundos ocorre, muitas vezes, de forma privada, por meio de contatos pessoais de suas gestoras e gestores, ou utilizando plataformas de distribuição de produtos financeiros de grandes bancos e multi-family offices (empresas que gerenciam o patrimônio de diversas famílias simultaneamente). 

Porém, este investimento apresenta alto risco de retorno e volatilidade e falta de liquidez no curto prazo – fundos de venture capital mantêm o capital por aproximadamente 10 anos, sem possibilidade de resgate antecipado. Assim, a confiança em gestoras e gestores desses fundos é um fator fundamental para decisão do investimento. Além, é claro, de comparar as mais diferentes “teses de investimento”, o histórico e experiência de suas sócias e sócios e outros tantos pontos importantes.

E a pandemia de covid-19 pode ter atrapalhado essas captações? A resposta é simples: muito pouco! 

Por um lado, principalmente durante os meses de março a julho de 2020, a grande incerteza no mercado levou investidoras e investidores a segurarem novos investimentos e buscarem ativos mais seguros, muitas vezes vinculados ao dólar, o que explica o volume menor de capital investido em startups e scale-ups no primeiro semestre de 2020. 

Mas, por outro lado, a pandemia enfatizou ainda mais a importância da tecnologia em nossas vidas e quanto este é, de fato, o futuro. 

Novas tecnologias permitiram com que parte da produção, distribuição e consumo dos mais variados bens e serviços se mantivessem. Novas tecnologias permitiram, também, que as crianças passassem rapidamente para a educação online. E não esqueçamos que o desenvolvimento extremamente rápido de novas vacinas e medicamentos também só é possível por conta do avanço tecnológico. A tecnologia vai ter um papel cada vez mais importante em nossas vidas e as investidoras e investidores sabem disso! Não à toa, elas e eles apostaram, e ganharam, com a grande valorização das FAAMG (sigla utilizada para Facebook, Amazon, Apple, Microsoft e Google) ao longo dos últimos 12 meses.

As reuniões presenciais deram lugar ao Zoom e, mesmo com toda a turbulência em que vivemos hoje, posso afirmar que o setor continua a todo vapor. Assim como os demais avanços da tecnologia, o trabalho remoto também passou a fazer parte do nosso dia a dia. E, apesar de cansativo para muitos, está funcionando, trazendo mais efetividade às reuniões e mais receptividade por parte dos investidores.

Estou confiante que nosso ecossistema continuará florescendo, cada vez mais, construindo um futuro melhor para o nosso país. 


*Artigo publicado originalmente no portal startups.com.br.