Os impactos da crise de 2020 nas scale-ups e os passos para a retomada

A crise de 2020 resultou em uma mudança drástica de comportamento na dinâmica da economia global e no ambiente de negócios. Parte dos segmentos tiveram impacto enorme no curto prazo e agora se preparam para retomar as atividades. Outros segmentos irão absorver o impacto ao longo dos próximos meses, talvez anos. 

Com isso, várias scale-ups brasileiras tiveram que preservar caixa, reduzir despesas e planejar a estratégia para se manter no mercado.

Porém, há ainda uma pequena parcela de empresas que não teve impacto e, eventualmente, pelo seu modelo de negócio ou tipo de oferta, estão conseguindo ajudar outras pessoas e empresas a se adaptarem ou passarem pela crise de forma mais amena.

Olhando para este cenário, a Resultados Digitais, em parceria com a Endeavor e PEGN, fez um estudo para entender como a crise afeta as scale-ups e as PMEs, considerando o impacto na operação, medidas e ações tomadas pelas empresas até o momento e necessidades mais urgentes. 

Queremos que, com o estudo em mãos, gestores e líderes, não só de PMEs, possam refletir e tomar melhores decisões.

Resultados Digitais 

Impactos da crise nas scale-ups

De 1.447 respostas coletadas, 431 (30%) eram de scale-ups, empresas que cresceram mais de 20% ao ano nos últimos três anos e possui mais de 10 colaboradores.

Como o foco do nosso trabalho são as scale-ups, nosso objetivo, aqui, é fazer um recorte do estudo e expor como a crise impactou essas empresas e quais medidas estão sendo tomadas por elas para a retomada do crescimento.

Confira a pesquisa completa aqui

Impactos da crise na receita 

O impacto na receita das scale-ups pode variar de acordo com a indústria, tamanho, modelo de negócio, região e inúmeras outras variáveis. 

As scale-ups passaram pela crise com impacto negativo menor que as PMEs. O impacto na receita, por exemplo, chega a ser 11,5% menor na média. Além disso, 17,1% dessas empresas tiveram impacto positivo na receita. 

Impactos da crise no tempo de caixa 

Referente a tempo de caixa, metade das scale-ups possuem, pelo menos, nove meses ou menos de caixa disponível, caso as condições permaneçam como estão. Ou seja, se não conseguirem empréstimos ou investimentos de risco nesse período, a maioria delas pode não sobreviver à crise.

No entanto, na média, as scale-ups possuem quase 3 meses de caixa a mais do que as PMEs. 

Impactos da crise no quadro de funcionários

Na média, 48,7% das scale-ups ainda não fizeram cortes em equipe, e 11,9% ainda estão contratando. Segundo dados da PNAD Contínua (IBGE – maio 2020), nos últimos 3 meses, foram perdidos 2,5 milhões de empregados com carteira assinada. 2,5 milhões é também o total de vagas que as EACs empregavam no final de 2017 (IBGE, Demografia das Empresas e Estatísticas do Empreendedorismo, 2019).   

Mesmo na crise, quase metade das scale-ups ainda não demitiram funcionários e outra parcela está contratando. Estas empresas são fundamentais para geração e manutenção de empregos no país.

Contudo, quase 40% tiveram cortes de funcionários. Como o capital humano é essencial para essas empresas que são intensivas em conhecimento, a redução do time é uma perda de um ativo importante para a escalabilidade desses negócios no mercado.

Como está o plano de contingência das scale-ups?

Como resposta à crise, 38,4% das scale-ups buscaram crédito via linhas de crédito com instituições financeiras e dívida de curto prazo, mesmo que essa não seja a forma de financiamento tradicional desses modelos de negócios. 

Olhando para a retomada do crescimento

No momento em que a pesquisa foi realizada, em maio de 2020,  70,2% das scale-ups estavam preocupadas em melhorar seu marketing e suas vendas. Logo em seguida, dois tópicos financeiros foram destacados: fluxo de caixa (65,2%) e acesso a capital (31%) – ambos vitais para a manutenção da operação do negócio. Parte do diferencial dessas empresas é investir muito capital para impulsionar o crescimento acelerado, o que faz com que  fluxo de caixa e acesso a capital sejam pontos decisivos nesse momento de crise. 

Mais da metade das scale-ups responderam que vão buscar alguma forma de financiamento nos próximos meses e 39,1% vão buscarão crédito para se financiar – o que não é comum para esse tipo de empresas. Apenas 17,9% das scale-ups planejam se financiar via equity.

Na maior parte das vezes, pelo modelo de negócios inovador e pela ausência de garantias reais para oferecer nos empréstimos, as scale-ups não conseguem empréstimos nos bancos privados (ou conseguem a um custo muito elevado). Por isso, acessar capital por meio de equity acaba sendo o caminho mais acionado. Essa dinâmica foi momentaneamente modificada na crise, considerando que os investimentos de VC – especialmente late stage – se retraíram nesse período.

Além disso, a principal necessidade de capital das scale-ups é decorrente das obrigações financeiras: 

  • 29,07% precisa de recursos para pagar folha de salário e;
  • 22% para pagar fornecedor e matéria prima.

Mas, para além disso, há scale-ups que estão buscando capital para crescer: 

  • 21,86% buscam investir em novos projetos de inovação;
  • 20,70% buscam adquirir novos clientes e;
  • 17,2% buscam aumentar capacidade produtiva.

Os passos para a retomada 

As scale-ups são os grandes motores do crescimento de empregos e de inovação no Brasil. Elas têm a disrupção como uma de suas principais características e, por isso, investem constantemente para manter suas altas taxas de inovação, crescimento e investimentos em capital humano. 

Como essas empresas investem em empregos de qualidade e novos projetos, a operação depende de um alto nível de capital para equilibrar o seu caixa, decorrente dos custos de investimento em mão de obra e inovação. Muitas vezes, essa necessidade é suprida via capital de risco – venture capital ou private equity -, porém, com o atual cenário de incerteza, a dinâmica de investimentos foi mais lenta e muitas scale-ups precisaram recorrer ao crédito bancário para se financiar.

Contudo, os impactos da crise não foram homogêneos em todos os setores. Algumas scale-ups se beneficiaram com a necessidade de digitalização. Neste quesito, alguns setores tiveram aumento em sua demanda, tais como e-commerce, delivery, healthcare, edutech, fintechs, bancos digitais e entretenimento. Essas empresas não só aumentaram a receita durante a crise, como continuam contratando e investindo em seus canais de marketing, vendas e atendimento. 

Para que essas e outras scale-ups possam retomar seu crescimento de maneira sustentável, é necessário construirmos um ambiente de negócios mais simples e justo. 

Acreditamos que essas empresas  serão o grande impulso para a retomada econômica do país no momento pós-crise. Por isso, se vão mal, além do risco de perdermos um ecossistema de inovação que levou 20 anos para se formar, o país também pode perder até 2.5 milhões de empregos.